Tabajara
Orientação de um mestre a seus jovens discípulos

"Deixou seus pensamentos divagarem nas recordações das muitas lutas travadas naquela existência. Lembrou-se das conspirações e das dores daquele povo que ainda não compreendia os porquês da natureza e de sua evolução. Tinha no entanto, em seu íntimo, a certeza de que muitas pequeninas sementes foram plantadas, como tantas outras no passado. Talvez um dia na eternidade cada um daqueles homens pudesse fazer boa colheita, especialmente porque já teriam miscigenado suas experiências e de certo estariam caminhando para ser um só.
Sorriu ao lembrar-se das perguntas aflitas dos rapazes sobre isso quando ainda estudavam no grande templo sob seus cuidados.
_ Mas excelência, se evoluímos sempre para nos tornarmos pessoas melhores, como explicar meus sonhos? _ perguntou um dia o protocolar Iandé.
_ E com que tu sonhas meu filho? _ respondeu fingindo não ler seu pensamento.
_ Sonho que já fui um grande guerreiro e matei muitos. Depois sonho que já fui um bondoso sacerdote para depois voltar a sonhar que fui um bandoleiro desalmado. Até etíope já sonhei que fui. Como posso ter sido bom e depois voltar a ser mau? _ perguntou intrigado.
_ Até que agora tu és mais ou menos amigo _ provocou o espevitado Thu-ran, levando todos ao riso.
_ Não te preocupes, pois somos todos iguais meu filho. Somos um, lembras-te? Estamos sempre evoluindo, mas o problema é que quando pensamos nisso achamos que vamos melhorar em todas as existências, numa linha reta e continua. Sempre para frente. Se assim fosse já seríamos todos deuses e não haveriam mais problemas sobre as terras. O problema reside no fato de pensarmos de forma pequena. Se pensássemos grande notaríamos que a evolução do homem se dá dentro de sua raça e cada uma delas dura milhares de anos. Repara: durante a última lua grande vocês aprenderam muito, mas houve momentos em que fingiram estudar, que eu bem notei _ falou divertido, para depois completar:
_ E quando voltavam das distrações tinham sempre a esperá-los alguma tarefa extra, não é verdade? _ os rapazes se entreolharam sem espanto. Como esperar que o velho mestre não soubesse das travessuras?
Ria por dentro ao ver seus rostos juvenis afogueados gaguejando explicações e desculpas.
_ Não vos desculpeis por vosso momento meus filhos. Também é o meu. Subimos e descemos nas ondas deste mar que é a grande ilusão da vida dependendo do quanto vamos melhorando ou sofrendo; digo sempre que isto que chamamos vida enquanto encarnados é uma ilusão apenas porque não é a verdadeira vida; a vida real reside em nossa alma, em nossa consciência; não deveríamos nem nos vangloriar e nem tampouco nos queixar de nossos melodramas particulares em cada momento, em cada existência. Lá adiante está a praia onde poderemos chegar para nos tornarmos mais um grão de areia, afirmando o terreno para a chegada dos demais, sem mais nos importarmos se somos pobres ou ricos, feios ou belos, escravos ou poderosos. Mas só chegaremos à praia no dia que não nos importarmos também que nossa chegada seja sem pompa e sem nos sentirmos os escolhidos pelos deuses apenas pelo bem que fizemos, pois que é apenas nossa obrigação e nossa natureza. Enquanto isso estaremos à mercê das marés. Simples assim _ terminava deixando os meninos pensativos."


Fala de Tabajara a Tupayba, o futuro tuxauá e seus amigos no Templo de Áries em "Terra dos Ay-Mhorés".
Tabajara

Originário de Erg, acompanha os passos de seu povo em seu êxodo até o planeta Terra, guiando e conduzindo seus remanescentes até o fim da dinastia dos Ay-Mhorés, quando atuou como sumo sacerdote do templo de Áries. Educou Tupayba,  o último rei, filho de Ay-Mhoré IV até seu desterro na Montanha da Felicidade Suprema.
Sua história está contada nos livros Erg e Terra dos Ay-Mhorés.
Veja as sinopses na seção "Literatura
".
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